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Juíza de Adamantina cria projeto e concurso de Educação em Direitos Humanos para a rede pública

2020-10-20T11:35:50-03:00 16 de outubro de 2020|

Clássicos da literatura estão servindo de base para levar conhecimento sobre Direitos Humanos a alunos da rede pública de Flórida Paulista e Adamantina. Idealizado pela juíza Ruth Duarte Menegatti, da 3ª Vara da Comarca de Adamantina, o projeto DenunciArte tem como ponto de partida lives transmitidas pelo YouTube e voltadas a professores, nas quais são discutidas as obras literárias sob a ótica do Direito, da Psicologia e da Educação.

A proposta é que essas discussões online levem os professores a criar atividades para que os alunos as desenvolvam junto com a família, estimulando a reflexão sobre temas como violência doméstica, igualdade de gênero e direitos da criança e do adolescente, sempre abordados dentro do contexto de cada história.

A juíza Ruth Menegatti e a psicóloga e educadora Denise Freire, parceira na elaboração do projeto, participam de todas as lives quinzenais, transmitidas pelo canal Universidade da Alma, da psicóloga. A cada edição, há um professor convidado para falar sobre a obra escolhida.

Embora a proposta seja educativa, o DenunciArte também se propõe a incentivar que os professores prestem atenção aos sinais manifestados pelas crianças, que podem estar vivendo situação de violência ou vulnerabilidade dentro de casa, ainda mais em tempos de pandemia, quando as aulas acontecem online.

“Na live sobre o ‘Chapeuzinho Vermelho’, eu falei o quanto os pais devem ficar atentos e apontei os canais de denúncia para casos de violência, como o Conselho Tutelar e a Polícia”, disse a juíza Ruth Menegatti. A ideia não é se aprofundar em leis, mas indicar caminhos e incentivar a denúncia.

O projeto vem sendo aplicado de forma experimental em uma escola do Fundamental 1 de Flórida Paulista e em outra de Adamantina, com a discussão de obras como “Chapeuzinho Vermelho”, com abordagem sobre os riscos de a criança ficar sozinha; “João e Maria”, onde se fala de abandono; “Cinderela”, oportunidade para tratar sobre bullying. E “A Bela e a Fera” expõe o tema violência doméstica.

Novas ações serão realizadas como atividade de classe, encerrando o ano letivo. Por iniciativa da magistrada e da psicóloga, foi criado um concurso para premiar as melhores propostas pedagógicas. Todas poderão ser aplicadas como tarefa de casa.

No total, 23 professores se inscreveram. Os cinco melhores trabalhos serão premiados com R$ 500, cada, e um convite para que seus autores participem de uma edição sobre o tema no DenunciArte, no YouTube.
Na quinta-feira (15), haveria a de premiação aos quatro vencedores de Flórida Paulista (cada um de uma série), e na sexta-feira (16/10), a cerimônia em Adamantina.

Ambos os eventos seriam realizados nos Fóruns das cidades, com os vencedores e representantes do Ministério Púbico e da Secretaria de Educação de cada cidade. O valor da premiação é de contas judiciais, destinadas à prestação pecuniária.

“Foi emocionante o resultado. Os trabalhos foram extraordinários, e nos surpreendeu ainda mais o nível dos envolvidos”, afirmou Ruth Duarte Menegatti.

Trabalho no Fórum inspirou o DenunciArte
De acordo com Ruth Menegatti, sua experiência como magistrada foi o que a inspirou a criar o projeto. Ao se deparar com tantos casos de violência doméstica, entendeu que era momento de falar sobre igualdade de gênero.

O tema foi discutido por meio da obra “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, abordando o ciúme de Bentinho por Capitu. “A gente acredita que a única forma de quebrar esses comportamentos arraigados, que perpetuam a desigualdade da mulher, é por intermédio da Educação”, disse a juíza de Adamantina.

O projeto começou com livros para adultos, como o próprio “Dom Casmurro” e “Lucíola”, de José de Alencar, mas logo se estendeu às obras infantis e até a um conto que trata da velhice, “O Grande Passeio”, de Clarice Lispector.

O DenunciArte vem na esteira do trabalho que começou a ser desenvolvido em fevereiro, em Flórida Paulista, implementando por meio de uma parceria entre o Poder Judiciário, representado pela juíza Ruth Menegatti, o Ministério Público e a Prefeitura, e coordenado por Denise Freire.

Trata-se da implementação, em toda a rede municipal de Flórida Paulista, da metodologia de ensino Roteiro Único de Trabalho Humanizado, criado pela psicóloga.

Segundo Denise Freire, a base teórica para o roteiro está nos conceitos do pedagogo sueco Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), do psicólogo russo Lev Vygotsky (1896-1934), do psicólogo e biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980) e do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980).

“O roteiro é sustentado em quatro pilares: justiça, respeito, amizade e solidariedade”, explicou Denise Freire. A proposta é que todas as relações de dentro da instituição, onde há o roteiro, sejam pautadas nesses quatro pilares. Seja uma divergência administrativa, seja uma briga entre duas crianças, como exemplificou a psicóloga.

“A ideia é resolver os conflitos de forma que fique bom para todos. O roteiro busca despertar a inteligência racional, que leva ao processo de construção da ponderação. Quando você aprende a racionalizar, aprende a ponderar”, resumiu Denise Freire.